domingo, 28 de fevereiro de 2010

A obsessão do ouro e o fenômeno canadense

O heroi Crosby vibra após marcar o gol da medalha de ouro

Inauguro este blog com a decisão do hóquei no gelo masculino nas Olimpíadas de Inverno de Vancouver, o grande momento do esporte mundial neste fim de semana e, provavelmente, o evento esportivo mais esperado do ano até agora.

Abusando dos clichês utilizados pela Sportv durante a transmissão – de grande qualidade, por sinal -, imagine que Brasil e Argentina estivessem se enfrentando na final da Copa do Mundo do Brasil. Visualizou a cena? É o que aconteceu para os canadenses neste domingo. Guardadas às devidas proporções, pois, ao contrário do que se diz no futebol, nesse caso havia um favorito.

Apesar de ter perdido o primeiro jogo entre as duas equipes por 5 a 3, o Canadá, país que viu nascer o esporte em seus lagos congelados, seis vezes campeão olímpico, atual campeão mundial e eterno favorito à conquista da medalha de ouro, entrou nos Jogos com a quase obrigação de levar o título. Os jornais canadenses de domingo só falavam sobre a medalha de ouro. Antes mesmo do disco “rolar” pelo gelo, o publico exibia cartazes alusivos à conquista. Imagine que a Seleção deve sofrer pressão semelhante em 2014.

Torcedor canadense exibe cartaz antes da partida

Por outro lado, nem mesmo os próprios americanos esperavam ver a sua seleção disputando a medalha de ouro olímpica. Quatro anos antes, em Turim, eles haviam ficado apenas na oitava colocação e agora apresentavam a seleção mais jovem do torneio, com média de idade de 26,5 anos. Excetuando o goleiro Ryan Miller, considerado pela própria mídia americana como a única estrela do time, o grande destaque dos jogos foi Patrick Kane, que parece até mais novo do que seus 22 anos.

Falando em clichês e em 22 anos. O roteiro da partida não poderia ser mais holywoodiano. Após sair ganhando por 2 a 0, o Canadá viu os EUA empatar quando faltavam apenas 24 segundos para o fim do terceiro e último período, levando o jogo para a prorrogação. E, quando o país esperava que a aparição de um herói para salvar a honra nacional, surge Sidney Crosby. Considerado o melhor do mundo com apenas 22 anos, Crosby vinha fazendo uma olimpíada bem discreta, para pegar leve, até o momento.

Miller permanece parado após o gol canadense

No hóquei no gelo, as estatísticas consideram gols e assistências como pontos anotados pelo atleta, e ele não anotava um mísero ponto desde o jogo contra a Alemanha. No terceiro período da final, Crosby teve uma situação de breakaway (uma espécie de contra-ataque livre de marcação) e não conseguiu marcar frente a frente com Ryan Miller – se bem que hóquei é um esporte que nunca dá para saber quando o atacante tem uma chance clara de gol, visto que os goleiros tapam a meta inteira em quase todas as situações.

Contudo, quando a coisa apertou, quando parecia que os americanos estavam com o momento favorável após o gol de empate nos últimos 25 segundos do tempo regulamentar, surge o garoto de ouro canadense. Após uma improvável tabelinha, a lá toca e me voy, Crosby literalmente fuzilou o goleirão yankee e fez explodir a imensa maioria dos 19 mil espectadores que lotaram o Canada Hockey Place e dos 32 milhões de habitantes espalhados pelas geladas terras do país.

Se você nunca tinha ouvido falar de Sidney Crosby antes, saiba que ele é um verdadeiro fenômeno do esporte. Antes mesmo de ser selecionado em primeiro lugar do Draft da NHL (saiba mais sobre o Draft) de 2005 pelo Pittsburgh Penguins, ele já era uma figura conhecida em seu país. Em 2003, foi o artilheiro, o novato do ano e o melhor jogador da CHL (Canadian Hockey League), aos 16 anos. Ao chegar na liga profissional norte-americano, Crosby foi apelidado de The Next One, em alusão ao The Great One, Wayne Gretzky, o também canadense considerado o maior jogador de hóquei de todos os tempos. Antes mesmo de Crosby estrear como profissional, o próprio Gretzky afirmou que o prodígio poderia superar os seus impressionantes recordes – o ex-atleta anotou mil pontos a mais do que o segundo maior artilheiro da história da NHL.

Quatro temporadas após o seu debut, Crosby já alcançou alguns feitos impressionantes, como liderar a liga em pontos, ser escolhido o capitão de uma equipe mais jovem na história, ser o mais jovem ser escolhido para a seleção da NHL, entre outros. Mas, mais impressionante que os feitos individuais, nesses quatro anos, Crosby liderou os Penguins, que não alcançavam os playoffs desde 2001, a duas decisões da Stanley Cup (a grande final da NHL), sendo que o time levou a taça na temporada 2008-09.

Com esse currículo, não poderia ser de outro atleta o gol que decidiu a medalha de ouro para o Canadá.

Terminados os Jogos de Vancouver, fico com a sensação de querer acompanha a NHL, que não é mais transmitida pela ESPN. Afinal, todo esporte em que jogar o adversário na parede é liberado e o juiz não interfere na pancadaria até que um dos jogadores caia no chão vale a pena ser acompanhado.